Mostrando postagens com marcador Jean de La Fontaine. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Jean de La Fontaine. Mostrar todas as postagens

Os dois cães e o burro morto

Dois cães um burro morto comer queriam,
Que nas águas dum rio viram boiando;
Como, porém, chegar-lhe não podiam,
Acudiu-lhes pescá-lo... O rio secando!
Tentando a empresa - caso presumível -
Bebem, bem... A ponto d'estourar! -
Assim os homens são, quando o impossível procuram realizar! 

Jean de La Fontaine
Leia mais...

Os dois burros

Dois burros iam indo - um com carga de aveia,

Outro levando a prata da gabela.

Este, cheio de si com a carga tão bela,
Por nada a quer deixar, por tê-la sempre anseia.

Com largo passo ia a marchar
Fazendo o seu cincerro soar.
Mas surge logo - ó sorte ingrata!
Bando inimigo, e quer a prata.

Contra o burro do fisco esse bando se atira,

Pega-lhe o freio e o faz deter-se.
O burro, então, ao defender-se,

Espancando se vê: geme o pobre e suspira.
"É isto" - então diz ele - "o que foi prometido?"
Do perigo o outro burro isento se retira,

"E morro eu nele, assim batido?"
"- Amigo" - respondeu-lhe o companheiro -
"Nem sempre é bom o ter-se alto emprego no mundo.
Serviste tu, como eu, a modesto moleiro,

Não te acharias quase moribundo."

Moral da Estória:
Sofre maior risco quem tem maior responsabilidade. 

Jean de La Fontaine
Leia mais...

Os dois amigos e o urso

Um urso acometeu dois passageiros:
Um deles, que os pés tinha mais ligeiros,
Pôs-se em cima duma árvore escondido:
Vendo, o outro, que tinha mau partido,
Estendendo-se em terra nem bulia
Nem respirava: morto se fazia.
Cheirando-o por orelhas e por cara,
O deixa intacto a fera, e se separa.
Dizem que, se encontrou uma pessoa
Que julga estar já morta, lhe perdoa.

O da árvore, já livre do perigo,
Vindo com ar de riso ao seu amigo,
Lhe disse:
"Que segredo era o que o horrendo
Urso te estava agora aqui dizendo?"
"- Disse-me, responde ele, que em jornadas
Não leve semelhantes camaradas."

Moral da Estória:
Vê com quem andas para saber com que podes realmente contar. 

Jean de La Fontaine
Leia mais...

Os animais enfermos da peste

Mal que espalha o terror, o que a ira celeste

Inventou para castigar

Os pecados do mundo; a peste, em suma, a peste;
Capaz de abastecer o Aqueronte num dia,

Veio entre os animais lavrar;
E se nem tudo sucumbia,
Cereto é que tudo adoecia.

Já nenhum, por dar vida ao moribundo alento,

Catava mais nenhum sustento.

Não havia manjar que o apetite abrisse,

Raposa ou lobo que saísse
Contra a presa inocente e mansa,
Rola que à rola não fugisse,
E onde amor falta, adeus, folgança.

O leão convocou uma assembléia e disse:
"Sócios meus, certamente este infortúnio veio
A castigar-nos de pecados.

Que o mais culpado entre os culpados.

Morra, por aplacar a cólera divina,
Para a comum saúde esse é, talvez, o meio.
Em casos tais é de uso haver sacrificados.

Assim a história no-lo ensina.

Sem nenhuma ilusão, sem nenhuma indulgência,

Pesquisemos a consciência.
Devorei muita carneirada.
Em que é que me ofendera? Em nada.
E tive mesmo ocasião

De comer igualmente o guarda da manada.
Portanto, se é mister sacrificar-me, pronto.

Mas assim como me acusei,

Bom é que cada qual se acuse; de tal sorte
Que (devemos querê-lo, e é de todo pronto
Justo) caiba ao maior dos culpados a morte.

- Meu senhor, acudiu a raposa, é ser rei

Bom demais; é provar melindre exagerado.

Pois então devorar carneiros,

Raça lorpa e vilã, pode lá ser pecado?

Não. Vós fizestes-lhes, senhor,
Em os comer muito favor.
E no que toca aos pegureiros,
Toda a calamidade era bem merecida;
Pois são daquelas gentes tais

Que imaginaram ter posição mais subida

Que a de nós outros animais".

Disse a raposa; e a corte aplaudiu-lhe o discurso.

Ninguém do tigre nem do urso,

Ninguém de outras iguais senhorias do mato,

Inda entre os atos mais daninhos,

Ousava esmerilhar um ato;
E até os últimos refeitos,

Todos os bichos rezingueiros

Não eram, no entender geral, mais que santinhos
Eis chega o burro: - "Tenho idéia que no prado
De um convento, indo eu a passar, e picado
Da ocasião, da fome e do capim viçoso,

E pode ser que do tinhoso
Um bocaquinho lambisquei

Da plantação. Foi um abuso, isso é verdade".
Mal o ouviu, a assembléia exclama: aqui del-rei!
Um lobo, algo letrado, arenga e persuade
Que era bom imolar esse bicho nefando,
Empestiado autor de tal calamidade".

E o pecadilho foi julgado
Um atentado.

Pois comer erva alheia! Crime abominando!

Era visto que só a morte
Poderia purgar um pecado tão duro.

E o burro foi ao reino escuro.

Segundo sejas tu miserável ou forte,
Áulicos te farão detestável ou puro. 

Jean de La Fontaine
Leia mais...

O ratinho e a mãe

Certo ratinho inda novo,
Lá da toca onde nasceu,
A vez primeira saiu;
E quando se recolheu,
Contou à mãe quanto viu.

Disse: "Apenas saí fora,
Para o casal mais vizinho,
Trotando me encaminhei,
Meti-me num buraquinho,
E dali tudo espreitei.

Vi, ó mãe, dois grandes bichos,
Diferentes na figura,
Defronte da mim andar;
Um respirava doçura,
O outro fez-me trepidar!

Este d'um gorro vermelho
Ornava a cabeça esguia,
Que as orelhas tinha em baixo
Só com dois dentes comia,
Tendo por cauda um penacho.

Andava em dois pés, e tinha
Em cada perna um ferrão;
Em si c'os braços bateu,
Desatou voz de trovão,
Que de horror me estremeceu!

Pelo contrário, o primeiro,
Era da nossa figura,
Com modéstia passeava,
Tinha meiguice e doçura
Na mansa voz que soltava.

Era o seu rosto redondo,
Barba hirsuta, olhos luzentes,
Curta orelha e nariz chato,
Ralo e brancos os dentes,
Quase era o nosso retrato.

Tanto me encantou seu modo,
Que fora a seus braços ter,
Se a tal fera, ímpia e feroz,
Me não fizesse deter
Com susto da sua voz!

- Ah! filho, a mãe lhe tornou,
Quanto a aparência te engana!
Essa figura adorável
É duma fera tirana,
Nossa inimiga implacável!

Se lhe caísse nas unhas,
Em postas serias feito!
Finge doce mansidão,
Chama-se gato, no peito
Guarda um feroz coração!

É diferente o segundo
Que te deu susto mortal!
Tendo um aspecto feroz,
Se nos vê não nos faz mal.
E é benigno para nós.

Galo se chama, e nos pode
Servir de pasto alguns dias;
Olha como te enganavas!
Ao bom por susto fugias,
Ao mau por gosto buscavas!

Uma doçura afetada
É fruto da hipocrisia.
Sirva ao mundo esta lição:
Quem de aparências se fia,
Gosta da sua ilusão. 

Jean de La Fontaine
Leia mais...

O rato da cidade e o do campo

Era um bom rato burguês,
Que, uma vez,
Do campo a jantar opímo
Trouxe um primo.

Sobre um pérsico tapete
Seu banquete
Foi servido em profusão
No salão.

Em festiva patuscada,
Bem rasgada,
Passavam os dois sujeitos,
Satisfeitos.

Para ser brilhante a festa
Nada resta;
Mas alguém se agita e fala
Na ante-sala.

Um barulho se levanta
Que os espanta.
Foge o da corte, veloz;
O outro após.

Cessa o ruído de dentro;
Logo ao centro
Ratos vêm. Diz o hospedeiro,
Prazenteiro:
"Acabemos este assado,
Já provado.
Volve o outro: "nada; agora
Vou-me embora.
Breve em casa vos espero;
Pois eu quero
Que vades jantar comigo,
Caro amigo.
Lá não tenho tanto prato
De aparato;
Porém como sossegado,
Sem cuidado.
Nada vem interromper
Meu prazer."
Não há gozo com receio
De permeio. 

Jean de La Fontaine
Leia mais...

O pinto e a casca

Um Pinto bem dedicado
Pinto sério, sergiano,
Decidiu sair da casca
Com grande estrondo... E com dano!
Decide-se a fracturar
A casca com frenesim
E atribui-se a missão
De ao que era Não... dizer Sim
Juntaram-se-lhe galinhas
Alguns patos e canários.
Opuseram-se-lhe os corvos,
Pavões e abutres vários
Seguiu-se tal barafunda
Com votação de permeio
Que a tão dedicadas esperanças
Ficou quase tudo alheio.
Agora... Fazem-se análises
Estão os promotores à rasca.
E só resta esta certeza:
Qu'este Pinto volta à casca! 

Jean de La Fontaine
Leia mais...

O pinto e a casca

Um Pinto bem dedicado
Pinto sério, sergiano,
Decidiu sair da casca
Com grande estrondo... E com dano!
Decide-se a fracturar
A casca com frenesim
E atribui-se a missão
De ao que era Não... dizer Sim
Juntaram-se-lhe galinhas
Alguns patos e canários.
Opuseram-se-lhe os corvos,
Pavões e abutres vários
Seguiu-se tal barafunda
Com votação de permeio
Que a tão dedicadas esperanças
Ficou quase tudo alheio.
Agora... Fazem-se análises
Estão os promotores à rasca.
E só resta esta certeza:
Qu'este Pinto volta à casca! 

Jean de La Fontaine
Leia mais...

O pavão queixando-se junto a juno

A Juno o pavão se queixa
Dizendo - "Ó deusa celeste,
Com razão de ti murmuro
Pela má voz que me deste.

Sou ave tua, e se quero
Entoar os teus louvores,
Estrujo os campos em torno
Com meus guinchos troadores;

O rouxinol tão mesquinho
Deleita, se a voz levanta,
É honra da Primavera,
De ouvi-lo o mundo se encanta!"

Irada lhe torna Juno:
"Cata-te, néscio invejoso!
Por que desejas as vozes
Do rouxinol sonoroso?

De ricas pedras ornadas
Não parece a cauda tua?
O listrão do Íris brilhante
Em teu colo não flutua?

Ave nenhuma passeia
Que tanto pareça bem;
Em si ninguém reunir pode
Quantos dotes os mais têm.

Repartiu seus dons com todos
A profícua Natureza;
As águas coragem deu,
Deu aos falcões ligeireza;

Por presságio o corvo grasna,
O môcho nas mortes pia,
A gralha males futuros
Com seu clamor pressagia.

Do que são se aprazem todos;
E se torno a ouvir queixar-te,
Dar-te-ei voz de Filomela
Mas hei de as plumas tirar-te".

Não quis o invejoso a troca;
Que é nosso instinto invejarmos
Sempre o que os outros possuem,
Sem o que é nosso largarmos. 

Jean de La Fontaine
Leia mais...

O pastor e o rebanho

"O lobo é forte, - vós, fracos;
Mas ele é um, - vós, duzentos;
Podeis, portanto, em momentos,
Fazer o lobo em cavacos!"

Desta maneira, um pastor
Ao seu rebanho falava;
E o seu rebanho jurava
Dar provas mil de valor.

Mas chega o lobo, - e, assustado,
Deita o rebanho a fugir!
Nunca dum reles soldado
Fareis um bravo sair.

Jean de La Fontaine
Leia mais...

O macaco e o delfim

Tinham os gregos por costume antigo
Ao cortarem do mar a salsa via,
Em os navios seus levar consigo
Cães e macacos. Em um certo dia,

Um navio equipado desta sorte,
Não distante de Atenas naufragara,
E todos sofreriam crua morte
Se um bando de delfinos os não salvara.

Segundo afirma Plínio, é nosso amigo
Este animal. Sabendo isto o macaco,
Para escapar daquele grande p'rigo
Por homem se impingiu. O que é ter caco!

Cai no engano o delfim (lorpa no caso!);
Ao lombo o macacão trepar deixou,
Foi nadando, nadando e, por acaso,
Antes de o pôr em terra perguntou:

Dize-me, és tu de Atenas? - É verdade
Aí sou bem conhecido, tenho sócios,
Parentes na mais alta sociedade...
Conta comigo se lá tens negócios.

- Conheces o Pireu? - Como os meus dedos,
É amigo em que todo o afeto eu pus...
Fizemos rancho em juvenis brinquedos.
O delfim ouvindo isto - catrapus!...

Foi o macaco um parvo sem segundo,
Creu que o nome dum porto era o dum homem!
Assim há palradores neste mundo
Que o pão de Deus, imerecido, comem. 

Jean de La Fontaine
Leia mais...

O lobo e o cordeiro

Na límpida corrente de um ribeiro
Mata a sede um cordeiro.
Chega um lobo em jejum que a fome atiça,
A farejar carniça.
"Ousas turvar-me as águas, malcriado?"
(Uiva o lobo irritado.)

CORDEIRO
"Rogo, senhor, a Vossa Majestade,
E com toda a humildade,
Que não se zangue com seu pobre servo;
Pois, respeitoso, observo
Que embaixo e no declive estou bebendo,
E a água vem descendo."
"Turvas (retruca o bárbaro animal);
Demais, falaste mal,
Há seis meses, de mim."

CORDEIRO
"Não é verdade;
Conto só três de idade;
Não tinha inda nascido."

LOBO
"Pois então
Falou um teu irmão."

CORDEIRO
"Não o tenho."

LOBO
"Foi um dos teus parentes,
Que me têm entre dentes;
E eu vingo-me de vós - cães e pastores,
Que sois tão faladores."
Disse, e sobre o cordeiro se despenha
E o conduz para a brenha,
Onde o come do mato no recesso,
Sem forma de processo.

Que a razão do mais forte predomina
Esta fábula ensina.

Moral da Estória:
Contra a força não há argumentos. 

Jean de La Fontaine
Leia mais...

O lobo e o cão

Em manhã nublada, e fria,
Um velho Lobo esfaimado
Sua sorte maldizia,
Que tamanho era o cuidado
Dos guardadores do gado;
Eis que mui gordo, e mui rédeo
Vê vir um Gôzo anafado
Que lhe não faria tédio
Se o comesse, mas temia
Pelo estado em que se via
Combater, e sair mal,
E a manhã por brusca, e fria
Ter questões não permitia;
Eis prudente em caso tal,
De projetos variando,
Fez-lhe grande cortesia
Mui submisso elogiando
Sua formosa figura,
Asseio, porte, e gordura;
A louvores tais sensível
Torna-lhe o Gôzo aprazível:
"Se esta vida, esta ventura
Gozar queres, novo amigo,
Deixa o campo, e vem comigo,
Viverás sempre em fartura,
Verá sempre de comer,
Tenros ossos que roer
De perú, frangão, perdiz."
Eis o atalha o Lobo, e diz:
"Saber quero, caro amigo,
O que é preciso fazer,
Para tanta dita obter?"
"Não o sabes? Eu to digo,"
Lhe responde o Gôzo honrado,
"Deves ter muito cuidado
Em guardar a toda a hora
A porta do teu patrão,
Vedar qu'entre algum ladrão;
Sempre ladrar aos de fora,
E aos de casa fazer festa;
Mais dizer-te ainda me resta,
Que também não será mau,
Que não corras sobre os gatos,
Quando lamberes os pratos,
Que pode vir algum pau
E fazer-te o catatáu;
Deves também ter cuidado
Em ser em casa asseiado;
Que se o que eu digo fizeres
Evitará desprazeres,
Verás o rosto à ventura
Sem trabalho, e com fartura."
O bom Lobo do que ouvia
De prazer pranto vertia,
E impaciente d'alvoroço
Dia ao Gôzo: "voemos,
Por ver se chegar podemos
Hoje inda às horas do almoço;
Mas espera, amigo caro!
Eu agora é que reparo!
O que tens tu no pescoço?"

CÃO
Quem eu? Isto não é nada.

LOBO
Não é nada! Isso é asneira!

CÃO
Quase nada, brincadeira.

LOBO
Pois daqui não movo um pé
Sem saber isso o que é.

CÃO
É o calo da coleira.

LOBO
Que? Tu vives em prisão?

CÃO
Vivo sim, isso que tem?
Como, bebo, passo bem,
E amigos meus todos são.

LOBO
Pois regala-te por lá,
Que eu antes sem sujeição
Quero pobre viver cá
Sofrendo fome, e lazeira,
Do que assistir na cidade,
Bem que passe à cavalheira,
Tendo presa a liberdade.

Nisto dando uma carreira
Para o bosque mais vizinho
Foge, e deixa o cão sozinho:
Que dando atenção severa
Ao que de ouvir acabava,
Conheceu bem que não era
Tão feliz como julgava. 

Jean de La Fontaine
Leia mais...

O gato velho e a rata novinha

Uma rata novinha e inexp'riente,
Tentando enternecer um velho gato;
"Não me comas, dizia; sê clemente!...
Pequena sou, a fome te não mato!
Espera uns meses mais; bela pitança
Em mim terão teus filhos!
- Perdoar,
Um gato, e gato velho? Louca esp'rança!
Não deixo aos filhos meus um tal manjar!"
Tudo julga alcançar a mocidade,
E é cruel a velhice, na verdade! 

Jean de La Fontaine
Leia mais...

Os dois ratos, o raposo e o ovo

Dois ratos, indo buscar vida, acharam
Um ovo, que jantar daria farto
A gente dessa laia,
Que de acertar c'um boi não necessita.
De apetite e folgança mais que cheios,
Cada um já se dispunha
A ter no ovo quinhão. Mas, eis que avistam
Um fuão, que se diz Misser Raposo.
Aziaga aventura!
Salvar o ovo era o ponto, enfardelá-lo,
Ir, cos dianteiros pés levando-o a pino,
Rodá-lo, ou já arrastá-lo,
Sobre arriscado, era África impossível,
Necessidade é astuta, é inventiva.
Mede a distância à toca,
Mede a distância ao sofrego raposo,
Ora de mais de légua. Eis que um se abraça
Co ovo, e se põe de costas,
Tombos sofre, sofre ásperos caminhos,
Enquanto o outro o reboca pelo rabo.
Meditem neste conto,
E não venham clamar que é nulo o juízo
Nos animais; quando eu, se em mim coubesse,
Lho dera igual à infância. 

Jean de La Fontaine
Leia mais...

O gato e o rato

Eram quatro animais diferentes:
Come-queijo - gatorro ardiloso,
A coruja que é pássaro triste,
Trinca-malhas, ratinho guloso,
E a doninha de longo corpete;
- Tudo gente de gênio rixoso.

Frequentavam o tronco, já podre,
D'um pinheiro que o tempo escavou.
Foram vistos. À noite, um sujeito
Forte rede ao pinheiro enlaçou.
Come-queijo, à procura de caça,
Nesse dia (infeliz!) madrugou.

Inda as últimas sombras da noite
Não haviam fugido ante o dia,
Eis o - gato, caído na rede,
A miar, já prevendo a agonia;
E o ratinho, - por ver o inimigo
Nesse transe - a exultar de alegria.

Disse o pobre do gato: Amiguinho!
Já me destes tão firmes sinais
Da bondade que em todos os tempos
Aos de nossa progênie mostrais,
Que do laço, em que, néscio, ei caído,
Eu confio, soltar-me venhais.

Por virtude de santo direito
A vós só, por amor singular,
Sempre quis como a luz de meus olhos,
Vossos dias buscando poupar.
Do que fiz rendo graças aos deuses,
E nem disso me resta pesar.

Como gato devoto, eu saía
À oração qual é d'uso entre nós;
Nesta rede caí; minha vida
Nas mãos tendes; rompei-me estes nós!"
- "E que paga virá (volve o rato)
De meus grandes serviços após?"

"D'estas unhas dispondes à vontade,
Que eu vos juros, em perpétua aliança,
Amparar-vos, velando constante
Sobre vós; dar-voz paz, segurança,
Para ver-vos - sereno e tranqüilo
Desfrutando completa abastança.

Comerei a senhora doninha
E de dona coruja o marido."
"Ó pascácio; (replica-lhe o rato)
Vós julgais-me de senso despido?
Suporíeis, se fosse livrar-vos,
Que eu tivesse o juízo perdido."

Seu refúgio, em seguida, buscando,
Vê-lhe à boca a doninha postada.
Sobe mais; antepõe-se-lhe o môcho;
Bate presto em veloz retirada,
Vendo em tríplice e instante perigo
Sua triste existência arriscada.

Atendendo ao mais próximo risco,
Foi as malhas da rede roer;
Solta um nó; solta dois; solta muitos;
Té que a todos consegue romper,
E dos laços que o tinham retido
Ao tartufo, afinal, desprender.

Neste ponto aparece o da rede;
Fogem ambos; cada um de seu lado.
Pouco tempo depois mestre gato
Viu o rato, que um tanto afastado,
Vigiava; e lhe disse: "A meus braços,
Vinde irmão, para mim tão prezado.

Ofendeis-me, mostrando receio,
Qual se eu fosse mortal inimigo;
Não risquei da memória a bondade,
Que inda há pouco provastes comigo;
Pois, abaixo de Deus, vosso esforço
Me salvou a existência em perigo."

Torna o rato: "E julgais que me esqueça,
Vosso instinto e feroz propensão?
Há tratados que forcem um gato
Por alguém a mostrar gratidão?"

É precária e sem base a aliança,
Que é ditada por força ou pressão. 

Jean de La Fontaine
Leia mais...

O gato e a raposa

Uma vez, a raposa conversando
Com o gato, se esteve ali gabando
De ter artes e gírias bom recheio;
Enfim, que delas tinha um saco cheio.

O gato lhe dizia:

"Para tudo

Vós tendes cachimônia; eu sou mui rudo;
Tendes um saco cheio; eu, por desgraça,
Nunca pude aprender mais que uma traça."
Nesta prática estavam divertidos.
E quando muitos cães foram sentidos,
Já os tinham no meio: em tal trabalho
O gato saltou logo em um carvalho,
E pôs-se lá de cima a ver a festa,
Que foi para a raposa bem funesta.

Moral da Estória:
Ter muitas iniciativas e expedientes nem sempre pode ser um bom negócio. Seria desejável ter um só, bom e eficaz. 

Jean de La Fontaine
Leia mais...

O gato, a doninha e o coelho

Do palácio de um jovem coelho,
Ouvindo seu próprio espelho,
Dona Doninha se apossou.
O dono estando ausente, ela nem se afobou:
Seus penates levou, aproveitando o instante
Em que ele espairecia, na manhã radiante,
Saudando a aurora que chegou.
Depois de um bom passeio e lauta refeição,
Janjão Coelho voltou à sua habitação.
Nesse instante, a doninha chegou-se à janela.
- Ó, numes hospedeiros, quem seria aquela? -
Indaga o animal expulso do seu lar -
Dona Doninha? então, cai fora!
Pega tuas coisas, sai agora,
Senão, todos os ratos daqui vou chamar.
A dama do nariz pontudo então refuta,
Dizendo que ela chegou antes.
Belo motivo de disputa:
Uma toca que apenas serve aos rastejantes!
- Mesmo que só coubesse um verme
Neste buraco, cita-me a legislação
Que um dia deu a concessão
De posse a João Coelho usos e tradições:
- A hereditariedade, há tempos iniciada,
A Pedro, meu avô, passou esta morada,
Que, por meu pai Simão, a mim me foi legada.
Pode contra essa lei haver contestações?
- Pois bem, chega de discussões.
Que por Raminagróbis seja então julgada
Esta questão. Tratava-se de um ermitão,
Um gato, com reputação
De judicioso e santo. Gordo e bem nutrido,
Era acatado e obedecido.
João Coelho achou a idéia boa,
E os dois lá foram procurar
A majestade sem coroa.
Arquivelhaco os chama: - viestes me falar?
Chegai-vos; estou velho e quase não escuto.
Nenhum dos dois pensou que era um ardil astuto,
E dele se acercaram, cheios de confiança.
Arquivelhaco, o penitente,
Num bote duplo, os dois litigantes alcança
E entre os dentes os põe de acordo juntamente,
Isto lembra bastante as disputas que ocorrem
Entre as nações pequenas que às grandes recorrem. 

Jean de La Fontaine
Leia mais...

O galo que se revestiu das penas do pavão

De certo pavão na muda
Um gaio as penas tomou,
E a roupagem cambiante
Ao próprio corpo adaptou.

Foi, depois, fazer figura,
Ao pimpar entre os pavões.
Conhecido - ei-lo enxotado,
A bicadas e empuxões.

Foge, entre vala estrondosa,
Corrido, ludibriado:
Leva o corpo em carne viva,
Pelos pavões depenado.

Buscando asilo e refúgio
Entre os gaios, seus iguais,
Foi repelido a assobios
E gargalhadas gerais.

Gaios bípedes conheço
Que não são imaginários;
Usurpam alheias penas
E se chamam plagiários.

Mas, chiton! Não é meu fito
Apontar os impostores!
Entre pavões são notórios
Os gaios usurpadores.

Moral da Estória:
A ambição, o desejo de possuir mais ou melhor, rouba-nos muitas vezes até o que é nosso. 

Jean de La Fontaine
Leia mais...

O galo novo, o gato e o murganho

Ratinho muito novo,
Bisonho, imprevidente,
Salvou-se, por milagre,
De um trágico incidente,

Ouvi de que maneira
À sua mãe contou
O que lhe acontecera,
Enquanto fora andou:

"Tendo transposto os montes,
Que são do Estado a raia,
Trotava, qual ratinho,
Que vai, solto, à gandaia.

Eis que meus olhos fitam
Dois animais notáveis;
Um, gracioso e meigo,
De gestos agradáveis;

O outro, turbulento,
Nunca em sossego estava;
Tinha uma voz ingrata
Que pelo ouvido entrava.

Carnosa saliência
Na fronte lhe tremia;
Uns como braços largos
Aos lados sacudia:

Parece, quando os move,
Que o vôo, erguer intenta.
Em forma de penacho
Vaidoso a cauda ostenta.

(Crendo de um bicho estranho
Fazer este retrato,
Era de um galo novo
Que à mãe falava o rato.)

Batia nas ilhargas
Cos braços tal pancada,
Fazendo grande bulha
E tanta matinada,

Que eu mesmo (Deus louvado!)
Campando de animoso,
Fugi, a praguejá-lo,
Atônito e medroso.

Teria, a não ser ele,
Entrando em relações
Co tal animalzinho,
Tão doce de feições.

De aveludado pêlo,
Como os de nossa casta,
É todo mosquetado
E longa cauda arrasta.

Parece que nos vota
Simpática ternura,
Pois tem, iguais às nossas.
Orelhas e figura.

Mostra aparência humilde;
Modesto é seu olhar,
Posto que o visse, às vezes,
Em chispas cintilar.

Ia travar conversa;
Eis solta o batedor
Tão estridente grito,
Que fujo de pavor".

"Escuta, diz a rata;
O tal açucarado
É meu filhinho, um gato,
Hipócrita chapado.

Sob enganoso aspecto
Ódio mortal disfarça
À toda a gente rata,
Por esse mundo esparsa.

Desse, de quem fugiste
Não pode mal provir.
Talvez seu corpo venha
De ceia a nos servir.

Das refeições do outro,
- Ó pérfido animal -
É nossa carne, ó filho,
A peça principal".

Que vezes aparências
Enganadoras são!
Não julgues pela cara;
Sim pelo coração. 

Jean de La Fontaine
Leia mais...