Os carneiros e o carniceiro

Estando juntos uns Carneiros, entrou o Carniceiro, e eles não se alvoroçaram, nem fizeram caso disso. Tomou o Carniceiro um e logo o matou; e nem com ver sangue temeram os outros. Foi por diante e os matou a todos um a um até o derradeiro, que, vendo-se manietado, disse:
- Por certo, com razão padecemos, pois vendo o nosso mal não quisemos entendê-lo. No princípio às marradas nos poderíamos defender, vendo que nos matavam, então não quisemos; agora eu só não posso: e assim acabámos todos. 

Esopo
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Os dois cães e o burro morto

Dois cães um burro morto comer queriam,
Que nas águas dum rio viram boiando;
Como, porém, chegar-lhe não podiam,
Acudiu-lhes pescá-lo... O rio secando!
Tentando a empresa - caso presumível -
Bebem, bem... A ponto d'estourar! -
Assim os homens são, quando o impossível procuram realizar! 

Jean de La Fontaine
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O rei dos bugios e os dois homens

Caminhavam dois companheiros, tendo perdido o caminho, depois de terem andado muito, chegaram à terra dos Bugios. Foram logo levados ante o rei, que vendo-os lhes disse:
- Na vossa terra, e nessa por onde vindes, que se disse de mim, e do meu reino?
Respondeu um dos companheiros:
- Dizem que sois rei grande, de gente sábia, e lustrosa.
O outro, que era amigo de falar verdade, respondeu:
- Toda vossa gente são bugios irracionais, forçado é que o rei também seja bugio.
Como isto ouviu o rei, mandou que matassem a este, e ao primeiro fizessem mimos, e o tratassem muito bem. 

Esopo
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Os dois burros

Dois burros iam indo - um com carga de aveia,

Outro levando a prata da gabela.

Este, cheio de si com a carga tão bela,
Por nada a quer deixar, por tê-la sempre anseia.

Com largo passo ia a marchar
Fazendo o seu cincerro soar.
Mas surge logo - ó sorte ingrata!
Bando inimigo, e quer a prata.

Contra o burro do fisco esse bando se atira,

Pega-lhe o freio e o faz deter-se.
O burro, então, ao defender-se,

Espancando se vê: geme o pobre e suspira.
"É isto" - então diz ele - "o que foi prometido?"
Do perigo o outro burro isento se retira,

"E morro eu nele, assim batido?"
"- Amigo" - respondeu-lhe o companheiro -
"Nem sempre é bom o ter-se alto emprego no mundo.
Serviste tu, como eu, a modesto moleiro,

Não te acharias quase moribundo."

Moral da Estória:
Sofre maior risco quem tem maior responsabilidade. 

Jean de La Fontaine
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O rato e a rã

Um rato da terra se fez amigo de uma rã, para sua desgraça. A rã, obedecendo a intenções desviadas atou a pata do rato a sua própria pata. Marcharam então primeiro pela terra para comer trigo, logo se aproximaram da beira do pântano e a rã, dando um saldo, arrastou para o fundo o rato, enquanto ficava na água lançando seus conhecidos gritos. O azarado rato, guinchando na água, se afogou, ficando a flutuar atado à pata da rã. O viu um martim-pescador que voava por ali e agarrou o ratão com suas garras, arrastando junto a rã, que também serviu de alimento ao pássaro.

Moral da Estória:
Toda ação que se faz com intenção de maldade, sempre termina contra o mesmo que a comete. 

Esopo
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Os dois amigos e o urso

Um urso acometeu dois passageiros:
Um deles, que os pés tinha mais ligeiros,
Pôs-se em cima duma árvore escondido:
Vendo, o outro, que tinha mau partido,
Estendendo-se em terra nem bulia
Nem respirava: morto se fazia.
Cheirando-o por orelhas e por cara,
O deixa intacto a fera, e se separa.
Dizem que, se encontrou uma pessoa
Que julga estar já morta, lhe perdoa.

O da árvore, já livre do perigo,
Vindo com ar de riso ao seu amigo,
Lhe disse:
"Que segredo era o que o horrendo
Urso te estava agora aqui dizendo?"
"- Disse-me, responde ele, que em jornadas
Não leve semelhantes camaradas."

Moral da Estória:
Vê com quem andas para saber com que podes realmente contar. 

Jean de La Fontaine
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O rato e a doninha

Uma Doninha, como de velha e cansada, não pudesse já caçar, usava esta manha: Enfarinhava-se toda e punha-se mui queda a um canto da casa. Vinham alguns Ratos que cuidando ser outra coisa, chegavam por comer, e ela os comia. Por derradeiro veio um Rato velho, que tinha já escapado de muitos trances, e posto de longe disse:
- Por mais artes que uses, não me colherás. Engana tu a esses pequenos; mas eu, conheço-te bem, não hei de chegar a ti.
E dizendo isto, foi-se. 

Esopo
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